Convocada pelo presidente do Sindicato Rural de
Cândido Mota, João Motta, a mesa diretora de
Assuntos Técnicos e Econômicos de Crédito Rural,
Tributário e Cooperativismo da Federação da
Agricultura do Estado de São Paulo - Faesp,
reuniu-se na capital na última quinta-feira com o
presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária
do Brasil, Fábio Meirelles, e assessores, para
analisar a Medida Provisória n.º 432, promulgada
pelo Governo Federal.
Após intenso debate entre as lideranças do setor
agropecuário, o cândido-motense João Motta concluiu
que a MP ‘não liquida os problemas de endividamento
do setor’. “Pelo contrário, para piorar, ainda
aumentou a revolta e a falsa impressão de caloteiros
que a população urbana e a mídia têm de nós,
produtores rurais”, desabafou o sindicalista, que
ainda criticou parte da imprensa, classificando-a de
‘irresponsável’. Ele considerou ‘maldoso’ editorial
do jornal Estado de S. Paulo, publicado na última
sexta-feira.
No texto, o editor criticou a tentativa do governo
em renegociar as dívidas do setor, e ‘ainda por cima
falou que tal medida estimularia o calote’, visto
que, segundo o próprio editor, ‘a rolagem das
dívidas foi feita indiscriminadamente’. No entanto,
segundo os técnicos que analisaram a medida, ‘uma
parte da mídia está desinformada ou mal
intencionada, pois veiculou informações distorcidas
e inverídicas acerca das novas regras’.
Um exemplo de mal entendido, segundo Motta, foi o
programa Globo Rural do último domingo. “O
apresentador, erroneamente, afirmou que todos os
pequenos produtores, indistintamente, seriam
contemplados com um desconto de 35% caso liquidassem
a dívida. Todavia, o que o repórter não advertiu foi
que esse desconto era apenas para aqueles produtores
enquadrados pelo Pronaf como pequenos”, frisou.
Diante disso, na visão de João Motta, houve uma
‘corrida desnecessária aos bancos’. “Ao chegar nas
instituições financeiras, o produtor não conseguiu
obter essa compensação, visto que ela era apenas
para os pequenos produtores enquadrados como tal
pelo Pronaf ‘C’ e ‘D’. O o produtor não pode
acreditar cegamente em tudo que a imprensa fala.
Aconselho o produtor a procurar o Sindicato Rural
antes de pagar qualquer parcela da dívida”, ponderou
o líder sindical.
Para o sindicalista, o governo fez mais uma vez
‘política de pão e circo’. “O Governo Federal,
eivado por interesses políticos e financeiros, mais
uma vez tratou com irresponsabilidade os problemas
do endividamento rural. Ele continua sendo o grande
responsável pela crise do setor agropecuário. O
governo é o grande vilão dessa história toda e está
perdendo uma grande oportunidade para implantar uma
política agrícola séria nesse país”, analisou; e
prosseguiu: “Falta interesse político para
solucionar definitivamente os problemas do
endividamento rural”.
Retrospectiva
O dirigente sindical lembrou que há vários anos o
governo vem tentando ‘empurrar com a barriga o
problema do endividamento do setor agropecuário’.
Lembrou que em 1995 foi instituída a Securitização e
o Programa Especial de Saneamento de Ativos, criado
exclusivamente para acertar as contas dos bancos.
Quanto à securitização, advertiu que o risco é da
União, ‘não interferindo no limite do crédito do
produtor’. Quanto aos custeios prorrogados, lembrou
que estes sim, limitam o crédito. Disse ainda que
desde então pouca coisa mudou. “A maioria das
medidas tomadas pelo Governo Federal tem o intuito
de favorecer as instituições financeiras,
compensando muito pouco o produtor”, alertou.
E continuou: “Não podemos esquecer que a grande
maioria das dívidas dos produtores rurais já traz
embutida 84% de correção cobrada indevidamente na
época do Plano Collor. Existe dolo e má-fé
deliberada por parte do Governo Federal em preparar
uma cilada para o produtor rural’. Além das altas
taxas de juros livres que já incidiam, as dívidas
antigas foram absurdamente infladas. Isso é um
roubo”, avalia Motta.
Capacitação
Por entender que as discussões e propostas de
soluções em torno do crédito e endividamento rural é
de vital importância para o setor, no último sábado,
o presidente do Sindicato Rural, acompanhado do
assessor jurídico Marcelo Cristaldo Arruda,
participou de curso em São Paulo sobre crédito rural
e endividamento agrícola.
Os participantes da palestra tiveram a oportunidade
de conferir detalhes técnicos e jurídicos da nova
medida provisória, ‘que aos olhos da grande maioria
passam desapercebidos’. De acordo com o palestrante
Lutero de Paiva Pereira, advogado e autor de
diversos livros na área de crédito rural, a nova
medida é mais ‘uma cilada para o produtor’. “A
dívida, embutida no próprio contrato do ‘Pesa,
quando chega ao final e o produtor pensa que já
liquidou, ainda tem mais para pagar”, relatou.
Para Paiva Pereira, a nova MP ‘é um engodo’. “A nova
MP foi como uma gravidez psicológica. Esperou-se
durante tanto tempo uma solução definitiva para os
problemas do setor, criou-se uma enorme expectativa
em torno da nova medida, porém, quando ela ‘nasceu’,
não atendeu às demandas da classe ruralista e
frustrou os interesses do pequeno e médio produtor
rural”, conclui o jurista.
Frustração
Os artigos 10, 11 e 12 da MP, que tratam das
prorrogações das safras 2003/2004, 2004/2005 e
2005/2006, foram ansiosamente aguardados, pois o
período dessas safras apresentou sérios problemas
climáticos, inclusive com decretos de emergência e
produtividade baixa. “No entanto, o descompasso
entre os altos custos da produção com o baixo preço
de comercialização dos poucos produtos colhidos, a
falta ou inexistência total de seguro para proteger
a produção e o produtor rural e não a instituição
financeira, a empresa de insumos ou a seguradora,
são fatores determinantes para o aprofundamento da
crise do setor”, desabafou João Motta.
Segundo o sindicalista, depois de tanta espera, o
que gerou alto grau de endividamento, o Governo
Federal ‘empurrou mais uma vez com a barriga os
problemas de endividamento do setor agropecuário’.
“Nessas dívidas estão incluídos, além dos recursos
obrigatórios, a juros de 8,75% ao mês, os recursos
livres que chegam a 18% ao ano, que tiveram apenas
uma pequena redução. Vale lembrar ainda que nesses
últimos anos os bancos privados sequer acataram o
que as resoluções do Conselho Monetário Nacional
determinaram. Com vencimento total para 1º de julho
de 2008. Depois de tanta expectativa, o que a medida
trouxe foi uma singela redução de juros”.
No caso de investimento, disse Motta, ‘troca-se uma
taxa de juros fixos por uma taxa de juros
variáveis’. “O fato assusta porque em momentos
anteriores, de inflação alta, a situação foi
terrível. Não sabemos até quando vai durar o
equilíbrio das finanças públicas. Esse tsunami de
otimismo que atinge o país pode acabar a qualquer
momento”, adverte Motta.
Comentários
De acordo com João Motta, o artigo 13º da MP fala do
Fundo de Amparo ao Trabalhador - Giro Rápido, antiga
medida paliativa que trouxe algum tipo de
compensação ‘apenas para quem, no passado, conseguiu
se enquadrar nela’. “Todavia, como quase ninguém no
passado foi enquadrado nessa hipótese, atualmente a
maioria não ganhou nada”.
O artigo 14, que dispõe sobre o Programa Nacional de
Agricultura Familiar, na visão de Motta, colocou o
agricultor em situação de adimplência e concedeu um
‘rebate sobre o saldo devedor das suas dívidas’.
“Trouxe algumas compensações importantes, porém há
poucos produtores em nossa região que se enquadram
nessa situação. A MP tratou mais dos fundos
constitucionais para as regiões Norte e Nordeste, da
cultura do cacau, do Pronaf e do Programa de Crédito
Especial Para Reforma Agrária, do que
necessariamente de assuntos mais relevantes para o
Médio Vale do Paranapanema”.
Para João Motta, ‘a MP nº 432, sem dúvida é uma das
mais significativas da história recente do país,
porém, trouxe pouca compensação para aqueles que
mais precisavam de ajuda’. “O produtor inserido no
Pronaf foi um dos que mais obteve compensações, no
entanto, na região não temos muitos produtores
enquadrados no programa, visto que as instituições
financeiras e o Governo Federal não adequaram o
programa ao perfil do nosso produtor”.
Conforme disse Motta, ‘para cobrir o custo das
safras 2003/2004, 2004/2005 e 2005/2006, o produtor
teve muito pouca ajuda do governo’. “Por isso o
produtor do Médio Paranapanema pouco se beneficiou
com a medida. Considerando que a maioria dos
produtores, no caso do ‘Pesa’ e da Securitização, já
tem acumulado o custeio das safras 2003/2004,
2004/2005 e 2005/2006, e que eles já não estão
conseguindo pagar as parcelas de juros menos
onerosos, como vão liquidar o total de sua dívida?”,
indagou; e prosseguiu: “Diante das novas regras, o
produtor pode ser induzido a liquidar uma dívida com
taxa menor e tempo maior ao invés de escolher
liquidar uma dívida com taxa maior e tempo menor
para pagamento”.
Proposta de Mudança
O que o Sindicato Rural quer, segundo o presidente
João Motta, são propostas que emendem a MP, para
possa atender as expectativas dos custeios e
investimentos para pequenos e médios produtores que
não se enquadram no Pronaf. “A entidade quer que os
produtores tenham um rebate no momento da liquidação
antecipada de sua dívida. Espera-se que haja um
alongamento do prazo para aqueles que não puderem
liquidar sua dívida e uma redução maior dos juros
obrigatórios e livres”, sugeriu o sindicalista.
O presidente adverte aos produtores, que antes de
liquidarem as dívidas, procurem o Sindicato Rural.
“Cada produtor tem um caso de renegociação próprio
no banco. Ele deve ficar atento, pois cada um tem um
prazo. Antes de pagar qualquer dívida procure o
sindicato, mas fiquem atentos para os vencimentos
das parcelas”.
Ele lembrou que acontece nesta quinta-feira,
encontro no Sindicato Rural de Cândido Mota. Estarão
reunidos presidentes de sindicatos rurais da reegião
para analisar os efeitos causados pela MP nº 432.
“Estamos brigando para que o produtor rural do Médio
Vale do Paranapanema seja ao menos recompensado
pelas perdas que teve nos anos ruins das safras
2003/2004, 2004/2005 e 2005/2006. Enquanto houver
possibilidade jurídica, continuaremos lutando pelos
interesses do produtor rural”, finalizou João Motta.