Escrever: essa é a arte de Cyrillo Andreotti

Cantar, tocar viola e sanfona, ‘contar causos’ e escrever, esses são alguns dos dons de seu Cyrillo Escatambul Andreotti, porém é na arte da literatura que ele mais se destaca. E através de seus escritos que escreveu sua história durante 71 anos. Atualmente, com 79 anos, e escrevendo desde os 8, ele faz questão de ressaltar que jamais chegará a assinar algo através da impressão digital, pois apesar do pouco estudo recebeu o dom divino de expressar através da literatura os mais puros e simples sentimentos do homem da roça.  

 O amor pela arte de escrever fez com que seu Cyrillo,  um típico cândido-motense nascido e criado na Água do Macuco aprendesse a escrever com a mão esquerda, após a direita ser afetada pelo mal de parkinson. Com muita força de vontade ele adquiriu a mesma prática que tinha com a direita, e ainda continuou escrevendo por cerca de 3 anos seus poemas, sonhos, histórias e pensamentos. Seu Cyrillo sempre fez questão de deixar algo escrito tanto nos cadernos dos filhos ou em qualquer pedaço de papel que encontrava pela frente. Seus textos foram reunidos por sua filha, que formou uma coletânea desde 1979, que virou um livro chamado ‘A hora do pensamento’, que será lançado amanhã no município.

Quando fala do que escreve, seu Cyrillo chega a se emocionar. Aos 79 anos e escrevendo há 71, ele diz o quanto é difícil não poder mais escrever, pois recentemente sua mão esquerda também foi afetada pela doença impedindo-o de escrever sua história, com as próprias mãos.

“Hoje eu já não consigo mais escrever, mas continuo tentando, não desisto. Desde que entrei na escola, com 8 anos, comecei a escrever e nunca mais parei. Gosto muito de escrever histórias sobre a minha vida, de minha família, sonhos, pensamentos. Apesar de ter estudado muito pouco, tudo o que aprendi, procurei passar para meus filhos e sempre escrevia no caderno deles frases e também contava histórias, sempre gostei de contar histórias”, disse seu Cyrillo.

Apesar de ter apenas até o terceiro ano de estudo, ele traz consigo um talento, um dom para a escrita, que deixa qualquer um encantado, quando ouve ou lê alguns de seus textos. Nascido e criado no sítio, ele sempre faz questão de relatar em suas histórias a vida do homem rural.

“Um dos textos que eu mais gosto é o da Montanha, que é a história sobre uma viagem que fiz a Faxinal, no Paraná e lá vi uma montanha e resolvi subir quando cheguei no pico, fiquei lá cantando o tempo todo, ao descer escorreguei em uma pedra e rolei por cerca de 8 metros não me machuquei, e chegando em casa registrei o acontecimento”, completou ele.

Em seus escritos ele também relata vários sonhos que teve, principalmente com o nascimento de uma das filhas em que ele escreveu como ela seria antes mesmo de nascer, história igual também aconteceu com uma das netas.

Ele se lembra muito de um dia em que pegou um caderno de um neto e escreveu um verso no meio. Quando a professora viu ficou impressionada e perguntou se era de autoria do garoto, que disse que era de seu avô. Ela, então, pediu que ele levasse o avô até à escola para que o conhecesse. O encontro acabou não acontecendo, mas seu Cyrillo ainda continuou escrevendo.

“Minha paixão em escrever é tanta, que certo dia fui arrumar os óculos e na hora de parcelar, a moça me pediu para assinar, como já não estava escrevendo bem devido à doença, disse que não conseguia assinar, foi então que ela disse para eu carimbar a impressão digital. Eu disse que isso eu jamais iria fazer, pois escrevo desde os 8 anos, quando aprendi, e sempre pude registrar tudo o que quis, não seria agora que iria começar a usar a impressão digital. Depois falei do livro e ela me disse que vai querer um para ler”, relatou.

A família

Neto de italianos, que vieram de navio para o Brasil. Seus pais Carlos Andreotti e Francisca Escatambulo Andreotti se instalaram na água do Macuco, assim que vieram de Descalvado. Foi lá que seu Cyrillo nasceu e permaneceu até pouco depois de se casar, quando se mudou para Porto Seguro, onde ficou até mudar se para a cidade.    

Casado com Elisabete Bolaventa Andreotti, seu Cyrillo é pai de 5 filhos: Rubens Aparecido, Lucinéia Maria, Valentina Vânia, Rosenei e Elaine Cristina, que se empenharam para realizar o sonho do pai em ter seus poemas, pensamentos e histórias lançados em um livro. Além dos filhos, ele ainda tem na família uma nora, 4 genros, 9 netos e 2 bisnetos.

“Eu tenho que agradecer a Deus por ter me dado esse dom de escrever, e também aos meus filhos que sempre guardaram qualquer bilhetinho, que eu escrevia para eles e que estão me proporcionando essa felicidade de lançar um livro. Estou muito feliz e agradeço muito”, disse ele muito feliz.

Leia uma das poesias de Cyrillo que estarão no livro

 

O Trabalho

O homem atrás do cabo da enxada

Trabalha debaixo de um chapéu de palha.

O sol aquece suas costas, nasce o suor,

Faz a luta de cada dia com muito amor.

Não pensa quase nada,

Só o tempo a seu favor.

A terra e as plantas cedo levantam

E quer sentir do sol o seu calor.

Ele é igual aos passarinhos, ali é o seu ninho.

A enxada é o bico que cata o alimento.

Com seu talento, faz a plantação

E tem ajuda da chuva, sol, vento.

Parece até acabrunhado,

Mas estando a seu lado

A gente vê o seu talento.

Sua bondade, seu amor,

Um jeito de camponês honesto

Sem tecnologia, só com a enxada

Ganha o alimento de cada dia.

A enxada nunca cresce, mas aparece numa poesia.

A enxada vive no chão.

O homem de roupa remendada de pé no chão.

Esta é vida do trabalhador do sertão.