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Para Motta, cesta básica é fator
determinante para ‘Pax Tupiniquim’
Em tom crítico, o presidente do
Sindicato Rural de Cândido Mota, João Antônio Ferreira da Motta,
bacharel em Direito, mostra que o agricultor não é ‘culpado
pelos grandes problemas nacionais, conforme a grande mídia quer
apresentar’. Em artigo, ele diz que a ‘maioria das pessoas se
esquece que a cesta básica é fator determinante para a ‘Paz
Tupiniquim’. Abaixo a opinião do sindicalista sobre a atual
situação brasileira.
Produtor rural, ‘Herói ou Bandido’?
Eivados por interesses
indeclaráveis, a grande mídia, maldosamente, incute no
imaginário nacional que o produtor rural é o grande responsável
pelo aquecimento global, além de ser pintado como ‘grande
empresário do agronegócio’, o que na prática não é verdade,
também é chamado de caloteiro quando não consegue arcar com as
obrigações leoninas impostas pelas instituições financeiras com
anuência e omissão do Governo Federal.
No entanto, a maioria das pessoas
se esquece de que a cesta básica é fator determinante para a
manutenção da Pax Tupiniquim - expressão usada em analogia à Pax
Romana, expressão latina para ‘a paz romana’, que é o longo
período de relativa paz, gerada pelas armas e pelo
autoritarismo, experimentado pelo Império Romano.
Atualmente, acometidas pelo mais
“nobre” espírito capitalista, as pessoas vivem numa época
descartável. As relações humanas passaram a ter pouco valor,
para não dizer nenhum. O mundo gira em torno de interesses
econômicos e as verdadeiras causas da existência humana deixaram
de ser relevantes. A vida ficou relegada apenas a um plano
filosófico, enquanto ser humano e agricultor: planto, logo sou
condenado.
É assim, parafraseando o filósofo
francês René Descartes, que tento descrever o quão ficou frágil
a dimensão da existência humana aqui na terra nos dias de hoje.
É lamentável chegar à conclusão de que os verdadeiros heróis do
passado viraram, na visão distorcida da grande maioria da
sociedade, os grandes vilões do presente.
Ocorre que poucos sabem da verdade.
Antes, incentivados pelo próprio Estado, o agricultor
literalmente desmatava sua propriedade para alimentar o povo da
cidade. Desmatar e plantar eram sinônimos de progresso,
desenvolvimento.
Entretanto, com o passar dos tempos
sua atividade foi sendo desvalorizada, inclusive criminalizada.
Assim, a impressão que nos dá hoje em dia é que o produtor rural
se transformou num criminoso. Plantar virou crime e obter um
pouco de ganho para prover sua família no campo, um pecado
mortal.
Desse modo, não devemos ir no mesmo
ritmo das informações veiculadas mundo a fora. Temos que ter
sabedoria para distinguir os diferentes objetivos de cada
informação ventilada para não se cometer injustiças.
Na verdade, o problema é que falta
uma política agrícola séria e condizente com o alto custo de
produção, haja vista que a propriedade rural é como se fosse uma
“indústria” a céu aberto, sujeitando-se aos altos riscos
provocados pelas mudanças climáticas.
Ademais, corroborado pelo art. 225
da nossa Constituição Federal, que diz: “Todos têm direito ao
meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do
povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder
público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo
para as presentes e futuras gerações.” (grifo nosso), o produtor
rural não pode ser penalizado ou “carregar nas costas” sozinho o
ônus de preservar o meio ambiente, que afinal cabe ao poder
público e à toda coletividade.
Nesse sentido, quando o Governo
Federal engendrou incentivos homéricos aos biocombustíveis,
divulgando aos quatro cantos, através do Sr. Roberto Rodrigues,
o então ministro da agricultura, que o Estado de São Paulo seria
a “Arábia Saudita do etanol”, esqueceu-se de pensar no pequeno
produtor rural, que vive à margem do agrobusines.
Esse tisuname de otimismo sobre os
biocombustíveis se revelou um verdadeiro engodo. Enquanto a
maioria das expectativas não se converteu em realidade, o
pequeno e médio produtor rural mais uma vez foi o grande
prejudicado nessa história toda. Além de não terem obtido o tão
sonhado lucro, visto que, apenas os grandes empresários do setor
se beneficiaram com o etanol, ainda levaram a pecha de grandes
responsáveis pela destruição das florestas, pelo aquecimento
global e pela falta de alimentos no mundo.
No final da década de 80 o Brasil
era praticamente alto suficiente em trigo, porém, o
Excelentíssimo Sr. Fernando Collor de Mello e seus companheiros
do congresso nacional, acharam mais vantajoso importar o trigo
do que incentivar o seu cultivo no Brasil. Com isso, extinguiram
a política desta cultura e o país reduziu drasticamente a sua
produção.
Por falta de uma política agrícola
séria, os produtores gaúchos de arroz e os produtores de feijão
de Itaí/SP também “quebraram”. O efeito “dominó” dessa
quebradeira foi sentido em vários setores da sociedade. Todavia,
nem assim fizeram algo pelo produtor.
Os pequenos e médios produtores por
falta de uma política agrícola séria e que valorize o produtor
rural e não o agronegócio, empresas de insumos e instituições
financeiras, vivem desorientados. Correm de uma cultura para
outra na esperança de obter renda para pagar suas eternas
dívidas e manter sua família e propriedade com dignidade,
entretanto, não cobrem nem o custo de sua produção.
Por isso, enquanto o mundo (ONU,
USA e U.E.) clama por alimentos em razão da crise mundial do
setor, nós - pequenos e médios produtores rurais brasileiros -
continuamos com fome dessa tão sonhada política agrícola.
Outrossim, é importante frisar
também que a sociedade precisa valorizar quem produz seu
alimento do dia-a-dia, pois o que sentimos é que quando o
alimento está barato é porque o governo é que é bom, mas quando
está caro é o produtor que é o culpado.
Não queremos altos preços para os
nossos produtos, queremos pelo menos cobrir os custos da nossa
produção, pagar nossas dívidas e obter pelo menos uma renda
mínima para manter nossa família e propriedade com dignidade.
É triste, mas infelizmente só os
agricultores “assentados” é que estão sendo atendidos pelo
Governo Federal e apoiados pela sociedade. Os que ainda estão de
pé, produzindo os alimentos e as riquezas da nação, estão sendo
tratados como bandidos e caloteiros.
Será que precisamos perder o pouco
que temos, ir para de baixo de uma lona preta em acampamentos na
beira de rodovias?
Para sermos reconhecidos como
produtores rurais e ter nossa importância respeitada, basta que
as pessoas deixem de ser egoístas e olhem para dentro de seu
prato de comida e percebam que nada cai do céu.
Sendo
assim, é mister salientar que as safras podem continuar a
quebrar recordes de produção, o real pode continuar em alta e os
juros até podem a cair, porém, enquanto também não houver uma
política de estruturação familiar, que contemple em sua
plenitude o bem estar da criança e do adolescente, conforme
preconiza o Estatuto da Criança e do Adolescente, de nada vai
adiantar o produtor rural plantar sua lavoura, pois, além de
continuar havendo famintos à espera de programas
assistencialistas, os analfabetos funcionais (àqueles que sabem
ler e escrever, porém não conseguem interpretar um texto)
continuarão a integrar o exército de reserva, que na visão de
Marx nada mais é do que uma reserva de gente pobre que pode ser
utilizada e desprezada à vontade do sistema capitalista.
Portanto, ainda que algumas pessoas enxerguem os problemas da
nação sob uma ótica diferente, grande parte do povo brasileiro
continuará exercendo o seu papel mais “nobre”: ser massa de
manobra. Por isso, enquanto estiver acesa a chama da esperança,
continuaremos lutando veementemente pelos interesses do pequeno
e médio produtor rural para que ele não seja injustiçado.
(João Antônio Ferreira da Motta é pequeno produtor rural,
presidente do Sindicato Rural de Cândido Mota e bacharel em
Direito)
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