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Cabras receberam gene humano para produzir leite que auxilia
sistema imunológico
O leite de cabras geneticamente modificadas poderá ser usado no
combate a doenças imunitárias como, a Aids, e em pacientes com
câncer que são submetidos à radioterapia e quimioterapia. A
produção do leite de cabras, adicionado da proteína Fator de
Estimulação de Colônias de Granulócitos humano (hG-CSF), é o
principal objetivo da pesquisa ‘Caprinos Transgênicos como
Biorreatores para Produção de Fármacos de Interesse em Saúde
Humana’.
O trabalho é desenvolvido por pesquisadores do Laboratório de
Fisiologia e Controle da Reprodução (LFCR), da Universidade
Estadual do Ceará (Uece) em parceria com a Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ) e Academia de Ciências da Rússia. Na
prática, o que se pretende é utilizar esses animais para a
produção de vários tipos de medicamentos. O primeiro passo para
a conclusão do projeto já foi dado. Este mês, um casal de cabras
da raça Canindé, nativa da região nordestina, completa três
meses. O que torna a fêmea Camilla e o macho Tinho animais tão
especiais é o fato de eles terem sido os únicos, entre 23
nascidos em laboratório, a expressar a mudança genética
introduzida pelos pesquisadores.
O nascimento desses animais transgênicos também coloca o Brasil
como o único país da América Latina a dominar a técnica e a
conseguir gerar caprinos geneticamente modificados. Os caprinos
que nasceram em março deste ano no laboratório da Universidade
receberam, ainda na fase embrionária, o gene humano que deve
permitir que produzam em seu leite a proteína hG-CSF.
Essa proteína atua na prevenção da neutropenia, ou seja, na
queda dos níveis de células brancas (neutrófilos), que fazem
parte do sistema imunológico. A redução dessas células é comum
em portadores de doenças como Aids ou em pacientes que são
submetidos à quimioterapia ou radioterapia. Estudos recentes
também apontam para a utilização do hG-CSF na regeneração de
áreas pós-enfarte do miocárdio e em isquemia cerebral.
Comemoração
O coordenador do projeto e pesquisador do LFCR, Vicente José
Freitas, comemora os primeiros resultados. De acordo com ele, a
opção pela proteína hG-CSF se deve justamente à importância
terapêutica dessa substância e à ampla possibilidade de produção
de medicamentos para doenças graves. Freitas destaca que, se as
expectativas se confirmarem, em breve, será possível produzir no
Brasil medicamentos a base de hG-CSF a custo 50% menor do que
existe no mercado. Além do menor preço, o medicamento
sintetizado a partir do leite de cabra, de acordo com Freitas,
deve diminuir os efeitos colaterais nos pacientes.
O pesquisador explica que o próximo passo da pesquisa será a
indução da lactação da cabra para que se possa analisar os
níveis de expressão da proteína humana no leite. Caso os
resultados se confirmem, Vicente Freitas acredita que será
possível iniciar a fase de reprodução dos animais para a
formação de um rebanho transgênico nos próximos meses. Esse
processo, segundo Freitas, poderá ser acelerado, já que a
transgene foi verificada em um macho e uma fêmea.
Ele diz que o cruzamento natural do casal com as características
alteradas eleva a possibilidade de obtenção de um filhote
geneticamente modificado para 75%. Freitas explica que também
serão adotados outros métodos, como a reprodução assistida,
através da transferência de embriões fecundados para outras
“mães”, até a clonagem.
Em sua avaliação, no máximo em três anos, será possível formar
um rebanho de até 100 caprinos geneticamente modificados.
“Através das matrizes e reprodutores, podemos, rapidamente,
formar um rebanho transgênico produtor de leite. Esse leite será
então beneficiado para isolamento da proteína e preparo do
medicamento”.
Após a produção do leite contendo a proteína humana, serão
realizados testes pré-clínicos e clínicos. Nesta etapa, será
necessária a obtenção de novas autorizações, que são concedidas
pela Comissão Técnica Nacional de Biotecnologia (CTNbio) e pela
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A pesquisa “Caprinos Transgênicos como Biorreatores para
Produção de Fármacos de Interesse em Saúde Humana” foi aprovada
em edital da Rede Nordeste de Biotecnologia (Renorbio). O
projeto recebeu cerca de R$ 1,5 milhão em recursos da
Financiadora de Estudos e Projetos (Finep/MCT). A previsão é de
que até o final dos trabalhos sejam repassados mais recursos do
MCT e de outras fontes de financiamento.
Tecnologia
O secretário de Pesquisa e Desenvolvimento (Seped/MCT), Luiz
Antonio Barreto de Castro, destaca que os resultados da pesquisa
demonstram a viabilidade da rota tecnológica escolhida. Segundo
ele, o caminho está aberto para outros projetos importantes. “É
possível realizar outras expressões no leite de proteínas
importantes como Fator 9 IX de coagulação, que é necessário para
o hemofílico. Esse método já foi testado em camundongos e agora
poderá ser usado em caprinos”, disse.
Luiz Barreto ressalta ainda que, com a mesma técnica, será
possível produzir leite para combater a diarréia neonatal. “A
mesma rota tecnológica poderá ser usada para expressar no leite
de caprinos substâncias que tenham a capacidade de neutralizar
ação de patógenos que causam a diarréia neonatal, como as
proteínas humanas lisozima e lactoferrina, que agem na parede
celular e matam a bactéria”, disse.
Segundo Barreto, ao final da pesquisa, a intenção é possibilitar
a industrialização do leite em embalagem longa vida, para que
possa ser comercializado em outras partes do mundo, como no
continente africano, onde também ocorrem casos de morte por
diarréia neonatal. “Essa pesquisa permitirá combater a
mortalidade infantil através da ingestão direta do leite
geneticamente modificado”, destaca.
Experiência
A construção do DNA que está sendo aplicada nas cabras foi
inicialmente testada em camundongos na UFRJ. Nessa fase foram
obtidas algumas fêmeas transgênicas, que expressaram a proteína
no leite. No caso da pesquisa realizada na Universidade Estadual
do Ceará, as cabras foram superovuladas e tiveram os embriões
colhidos, que depois foram microinjetados com uma construção
gênica para o hG-CSF. Na seqüência, os embriões foram
transferidos para cabras receptoras sem raça definida. Após o
nascimento, as crias foram testadas para verificar a presença do
gene.
O exame de DNA que fez a detecção dos transgênicos foi realizado
no próprio laboratório da UECE em um termociclador. Para
confirmação do resultado, as amostras das orelhas dos 23
cabritos nascidos entre os dias 10 e 20 de março foram enviadas
para o Laboratório de Animais Transgênicos da UFRJ para
realização da contraprova.
Raça
A experiência foi realizada com cabras das raças Saanen, de
origem suíça, e Canindé, nativa do Nordeste. Dos 23 caprinos
nascidos no laboratório, 13 são machos e 10 fêmeas; cinco da
raça Saanen, e 18 Canindés. Desse total, três expressaram a
mudança genética: o casal da raça Canindé, e um animal da raça
Saanen, natimorto.
O coordenador da pesquisa, Vicente Freitas, considerou positiva
a reação da raça Canindé ao experimento. A espécie, por produzir
menos leite que as raças européias, acabou entrando em extinção.
Agora com a pesquisa, esses animais, segundo Freitas, podem ser
revalorizados devido às propriedades que poderão ser adicionadas
ao leite. “Os caprinos da raça Canindé se mostraram mais
saudáveis do que os da raça Saanen. Com isso, abrimos uma nova
perspectiva para a criação desses animais”, destaca.
(Colaborou Assessoria de Comunicação do Ministério da Ciência e
Tecnologia)
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