Para geólogo, SP teve seu ‘dia de pânico’

O abalo sísmico registado anteontem à noite em vários estados brasileiros e em diverass cidades do Estado de São Paulo, inclusive na capital, foi uma situação normal, mesmo causando pânico aos moradores. A opinião é do cândido-motense José Reynaldo Bastos da Silva, geólogo e doutorando em geociências e meio ambiente, dirigente da Associação dos Produtores de Mandioca do Estado de São Paulo.

Em texto enviado à Redação, ele esclarece sobre o fato e diz que abalos em menor proporção acontecem em várias regiões do país, sobretudo no Nordeste. Mas, pondera que, todos, em menor escala. Ele ressalta que até técnicos norte-americanos ficaram surpresos com a intensidade do tremor e pelo fato de não haver registros anteriores. Abaixo, o artigo do geólogo, na íntegra.

“O terremoto no Dia da Terra

Na noite do último dia 22, a imprensa noticiou a ocorrência de um terremoto com a intensidade de 5,2° na Escala Richter (que vai até 9). O terremoto começou às 21h e durou cerca de cinco segundos. Esta magnitude foi considerada moderada porque o terremoto teve o seu epicentro no mar, a 10 quilômetros de profundidade e a 218 quilômetros de distância de São Vicente. Porém seus reflexos atingiram 20 cidades paulistas e seus efeitos foram notados em alguns prédios da cidade de São Paulo, colocando a população em estado de alerta e até mesmo desalojando temporariamente algumas famílias.

O abalo foi também notado nos estados de Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A população ficou naturalmente atemorizada com a trepidação incomum que chegou a balançar lustres, móveis e utensílios domésticos. Em Mogi das Cruzes chegou até a provocar o rompimento de uma tubulação de abastecimento público de água.

Terremotos no Brasil ocorrem constantemente, porém em intensidades imperceptíveis pela população. Segundo o Observatório Sismológico da Universidade de Brasília, foram mais de cinco mil nos últimos 10 anos, mas apenas 400 com magnitude igual ou superior a 3° na Escala Richter. O Centro de Informações sobre Terremotos do Serviço Geológico dos Estados Unidos também registrou o abalo e manifestou admiração por não haver registros anteriores de terremotos nessa região desde 1973, quando o serviço começou a atuar em escala mundial.

Nós estamos acostumados a relacionar terremotos a zonas de choque de placas que formam a crosta terrestre, as chamadas placas tectônicas. E nessas áreas, situadas no fundo do mar, acontecem, em conseqüência, as ondas gigantes, conhecidas por tsunamis, muito comuns no continente asiático. E logo se pensou em um tsunami a invadir as praias da baixada santista.

Porém, esta hipótese está descartada. Acontecem também terremotos em zonas de afastamento de placas, como é o caso da divisa entre a África e o Brasil, nas profundezas do Oceano Atlântico. E esses são geralmente bem menores que aqueles, sem formação de ondas gigantes porque o movimento é de tração interplacas, ou seja, com resultante vetorial horizontal.

Esta região à beira-mar é uma área de risco a terremotos de pequena monta, que devem ser monitorados pelos especialistas brasileiros e informados à população no sentido de conscientizar a evitar pânicos maiores e resguardar o salutar turismo praiano.

A Terra é dinâmica. Coincidentemente, quando a humanidade comemorava o seu dia, ela manifestou-se muito viva. E também coincidente com o dia do descobrimento do Brasil, sacudindo os moradores de uma de suas primeiras cidades fundadas, a praiana São Vicente. Viva o Brasil! Viva a Terra sempre viva! Salvem-se do terremoto do dia da Terra!”