Por Marcus Motta
A Lei Maria da Penha, que visa coibir e previnir a
violência doméstica e familiar contra a mulher, foi
amplamente discutida durante palestra realizada pelo
Conseg (Conselho Comunitário de Segurança) de
Cândido Mota, na noite de terça-feira. O evento
sediado na Casa do Advogado, teve como palestrante a
delegada da mulher da cidade de Ourinhos, Ana Rute
de Castro Bertolaso.
Entre os convidados destacam-se os membros da
diretoria do Conselho, lideranças de vários
segmentos, representantes de entidades, e comunidade
em geral. Na mesa principal compareceram o
presidente do Conseg - Alcídio Ribeiro, presidente
da OAB José Meirelles Filho, secretário de gabinete
Antonio Marcos Marroni representando o prefeito
Roberto Bueno, promotor Rogério Pinheiro Pagani,
delegado Luiz Antonio Ramão, e o 1º sargento Paulo
Roberto Dias da Motta, representando a Polícia
Militar.
Inicialmente, o evento que teve como mestre de
cerimônias a vice-prefeita e integrante do Conseg -
Inês Pimentel, abordou a origem da lei. Seu nome é
uma homenagem a Maria da Penha Maia, que foi
agredida pelo marido durante seis anos. Em 1983, ele
tentou assassiná-la por duas vezes, sendo na
primeira com arma de fogo, deixando-a paraplégica.
Já na segunda, por eletrocução e afogamento. O
marido de Maria da Penha só foi punido depois de 19
anos de julgamento e ficou apenas dois anos em
regime fechado.
Segundo a delegada Ana Rute, a nova medida que
comemora em setembro um ano de vigência, altera o
Código Penal brasileiro e possibilita que agressores
de mulheres no âmbito doméstico ou familiar, sejam
presos em flagrante, ou tenham sua prisão preventiva
decretada. Estes agressores também não poderão mais
ser punidos com penas alternativas, entre elas, a
tradicional cesta básica, além da legislação prever
medidas protetivas de urgência, que vão desde a
saída do agressor do domicílio e a proibição de se
aproximar da mulher agredida e filhos.
Outro ponto que a lei faz menção dis respeito aos
tipos de violência, que são os seguintes:
geográfica (violência doméstica) que ocorre dentro
de casa, parental (violência familiar) acontece
dentro da família, e a relacional (violência
interpessoal) que engloba as pessoas de contato
íntimo. Estes três tipos também possuem cinco formas
de violência: física, sexual, psicológica,
patrimonial e moral, visando proteger a mulher em
diversos aspectos.
“A nova lei trouxe muitos benefícios, mas ainda a
sociedade em geral não está preparada para sua
aplicação. Ela veio consolidar uma inovação
cultural, já que não visa somente a represssão, mas
a assistência à mulher em âmbito familiar, e também
oferece oportunidade de recuperação ao agressor, que
geralmente é dependende de drogas ilícitas ou
licítas como o álcool”, ressaltou a delegada.
Ela completa dizendo que a partir de agora a decisão
de punir cabe a mulher, e os órgãos competentes
cumprem apenas suas determinações, portanto é
preciso que haja uma conscientização sobre este
‘poder’ que ela tem em mãos.
“Com a lei Maria da Penha a mulher passou a ter uma
potenciabilidade a punição, então faz necessário
esclarecer suas determinações. O objetivo principal
é formar uma rede de atendimento, que envolva todos
os segmentos da sociedade. Cada órgão precisa se
reorganizar mediante aquilo que já dispõe,
oferecendo assim sua contribuição. Isto pode ser na
área da assistência social, saúde, mídia, educação,
e na própria polícia com adequação das normas, e
capacitação dos funcionários para atuar nesta área,
deixando de lado situações prejudiciais e que
geralmente ocorrem nos casos de violência à mulher”,
explicou Ana Rute, dizendo também que não é
necessária a implantação de uma delegacia da mulher
no município, mas como foi citado acima, oferecer
apenas uma boa formação aos profissionais
existentes.
A delegada destaca que, em Ourinhos, atualmente está
trabalhando com a conscientização da lei, e
conseguiu formar algumas redes de atendimento, porém
acredita que o resultado ainda é muito precoce, e
precisa de ampliação.
“Em nossa cidade geralmente temos uma média anual de
duas mil ocorrências, e a maioria envolve a
violência doméstica. Estes casos, no entanto, não
são levados adiante, sem chegar a inquérito
policial. Após a lei Maria da Penha a situação
permaneceu a mesma, e estamos trabalhando para
divulgá-la e principalmente fazer com que todos
entendam suas funções”, declarou a dirigente
policial.
Ana Rute diz ainda que é preciso desmistificar o
conceito de que os relacionamentos afetivos não
devem sofrer interferência externa. “Em briga de
marido e mulher se deve meter a colher sim, pois só
a partir disto é que poderemos ter dignidade futura
e uma sociedade melhor. Cabe a todos oferecer sua
contribuição, e ao perceber algum problema de
agressão procure levar ao conhecimento de algum
profissional. Não deixe que a omissão persista”,
finalizou a palestrante.
Situação local
Após o pronunciamento da responsável pela delegacia
da mulher de Ourinhos, o delegado Luiz Antonio
Ramão, citou os indíces de ocorrências no município
de Cândido Mota. Segundo ele, do total de casos
atendidos, 10% se relacionam a violência contra a
mulher, mas nem 5% tem continuidade, com
encaminhamento ao Fórum, já que as vítimas desistem
da ação.
“Apesar de não sermos uma delegacia específica para
atendimento à mulher, nosso trabalho já tem levado
em consideração as mudanças da legislação, bem como
nosso quadro de funcionários, é constituído de
várias mulheres, o que facilita o direcionamento dos
casos”, enfatizou o delegado, dizendo ainda que com
a reforma da unidade policial terão condições ainda
melhores de trabalho, incluindo parcerias no setor
de assistência social e psicologia.
O promotor Rogério Pinheiro Pagani também aproveitou
a palestra, para ressaltar que o Ministério Público
está a disposição da comunidade, e principalmente
aos segmentos que trabalham nas questões contra a
violência familiar e a mulher. O mesmo se aplica ao
presidente da OAB José Meirelles, que sugeriu ainda
a continuidade do trabalho com palestras sobre a lei
Maria da Penha, à toda população, em especial, a
classe menos favorecida.
Satisfação
O presidente do Conseg Alcídio Ribeiro, agradece
todos que participaram do evento, relembrando que a
iniciativa partiu da integrante do Conselho, Suely
Maria de Jesus Pecoraro. Destaca ainda que a
entidade continuará engajada neste trabalho de
divulgação da lei, bem como em outras situações que
beneficiem a comunidade.
“A palestra foi de grande valia, mostrando que é
possível obtermos resultados positivos com a união
de cada segmento. Agradeço a delegada Ana Rute pela
explanação tão objetiva e sua disposição para
conosco, além de todos que estiveram presentes no
evento”, finalizou o dirigente do Conselho.